Muito se fala sobre nossos medos. Medo da morte, medo de assalto, medo de perder quem se ama. Medo de mudar, medo de aranha, de cobra ou mesmo de algum lugar. Medo de altura, medo de cachorro ou em alguns casos mais extremos, como o meu, medo até de palhaço. Mas muito além disso, dessa fobia/pânico, meu outro maior medo é o medo do tempo. É o medo de que tudo tem seu prazo de validade, sua duração. É quando me vejo frente a frente com uma imagem de uma pessoa idosa, ou quando olho para minha avó, que seja, que percebo o quanto o tempo pode amedrontar. Você vira a noite, passa ela em claro conversando com alguém que resolveu dividir do próprio tempo com você. Ouve os pássaros cantando, percebe que o dia lá fora aos poucos vai se clareando e as coisas antes tomadas pelo escuro, agora ganham forma. A casa começa a fazer seus barulhos e portas, gavetas se abrem e se fecham constantemente. Mais um dia começou para os outros. O cheiro de café entra pelo quarto e enquanto todo mundo age com a vida você se vê aí, com um computador no colo, as pálpebras pesando e preparando-se para dormir. E é justamente quando você começa a se perguntar: E se esses forem meus últimos momentos? E se bem aqui o tempo resolveu findar-se? Será que fiz tudo o que me cabia fazer? Será que posso dar-me por satisfeito? E que não seja esse então o último suspiro. A gente segue com o plano, repousa e descansa por algumas boas horas. Pois é o prazo de acordar para percebermos que o dia acabara de ser desperdiçado. Perdemos aquela corrida matinal que podíamos ter feito. O almoço com a família. Uma tarde de açaí e bobagens ao lado de um ou dois amigos. Perdemos a programação chata da TV aberta mas que faz falta no dia a dia. Perdemos alguma inutilidade privada da TV a cabo mas que mesmo sabendo do quão vazia era, insistíamos em assistir. Poderíamos ter brincado com os cachorros, visitado algum parente que não vemos há tempos ou mesmo escutado no último volume nossa mais nova música favorita. Tantas as coisas que poderíamos ter feito enquanto desperdiçávamos nosso tempo fazendo algo como dormir. Mas a gente sempre adia. Sempre deixa pra amanhã. Hoje não! Não, por favor, hoje não! Amanhã eu terei mais tempo, amanhã eu te vejo. O beijo de hoje pode ficar pra depois! Cinema? A gente vai na sessão da semana que vem! E quanto a viagem que a gente tanto falou, não se preocupa, os aeroportos continuarão ali pra quando tivermos tempo pra ir. Mas logo o emprego pesa os ombros enquanto as contas pesam os bolsos. Logo a disposição já não é tanta e os amigos ainda menos. O que hoje são cervejadas em mesas cheias de gente que amamos, logo não será muito mais do que três ou quatro long necks enquanto nos ajeitamos nesse sofá frio. É que os cabelos embranquecem, os ossos enfraquecem a pele envelhece. Os sonhos desaparecem e de tanto deixar o que se quer fazer pra depois, quando decidimos por enfim viver, o tempo de nós se esquece. O tempo passa, ele acaba e insiste em jogar em nossa cara o pouco caso que fizemos dele. O tempo ri, gargalha! O tempo escarneia, zomba, faz chacota. Ele mostra que enquanto pensávamos muito dele possuir, na verdade pouco dele a gente tinha. O tempo é implacável e a vingança dele por se sentir rejeitado é dolorosa, nos acompanha até o túmulo. Que façamos em tempo o que ainda há de ser feito e que amanhã nos caiba o descanso, não hoje. Não enquanto temos a certeza de que o que é nosso ainda pode ser alcançado. Que deixemos pra amanhã só depois que as metas cabíveis pra hoje se encerrarem. Que não haja desperdício desse, que da pior maneira, nos mostra que jamais volta! O tempo continua sendo implacável.
Bruno Campos (via: brunocamppos)
Queria você no sofá com seu cheiro de roupa amarrotada amanhecida e cigarro. Cheiro que não parece bom, mas funciona tão bem